quarta-feira, 12 de junho de 2013

O baldas

   O professor baldas já nasceu cansado e como tal tem uma apetência especial para a exaustão ; não tem pressas nem lhe entra o stress, chega sempre tarde mas nem por isso, 5, 6, 7 minutos, coisa pouca mas que dá jeito; cumpre no seu oficio os serviços mínimos e mais não o faz porque o mundo não merece, não merece que ele trabalhe porque o mundo nada faz por ele; é um contestatário do ensino, oco, que nada acrescenta,  o outro, o que faz  é um palerma porque ninguém, no final, lhe agradecerá. O professor baldas contestatário é muito opinioso, vomita frases feitas e insurge-se com o estado da nação e, pasme-se, com o estado do ensino. Bastas vezes é auto-complacente e tem pena de si próprio, sente que dá muito de si à escola e a paga não é proporcional. Qualquer trabalho mais para além do exigido é anunciado aos quatro ventos como um sacrifício de alto valor; são deles as frases " anda uma pessoa a trabalhar para quê, ninguém nos dá valor?!"
   Para que se não sintam demasiado cansados normalmente trabalham sentados de perna cruzada, à distância comandam as tropas, e dispensam coisas do domínio extraterrestre como tabelas de avaliação ou planificações. Se estiverem distraídos acabam por mostrar parte do rabo com observações adequadas a quem não sabe o que anda ali a fazer. Se é para fazer algo mais moroso, burocrático ou de aplicação não imediata a pergunta fatal é " Para que é que estamos a fazer isso? Achas que alguém vai notar? É mesmo preciso? Tens a certeza da utilidade de tal coisa?"  O que se vai dar na aula seguinte depende da vontade, normalmente dos alunos; são extremamente permeáveis às vontades das crianças e por isso são professores muito fixes e dão grandes liberdades aos miúdos para se expressarem: a entropia no ensino onde reina a galhofa e a auto-recreação, e a placidez na expressão do rosto de quem não se vai massacrar demasiado a impor regras de convivência e saber estar. A criança tem que se expressar, calá-la é coarctar a sua liberdade, que há de mais libertador que ter um bando de pequenos índios a incendiar os nossos ouvidos na sala de aula ou no ginásio? Deixá-los, é mais fácil deixá-los do que educá-los, não me pagam para isso, não é verdade? Se os pais não querem e não fazem, sou eu que vou fazer?! Só se for tolo!  
   Dar aulas é uma seca pelo que a coisa faz-se de mansinho, sem levantar ondas e sem muito trabalho. Cumpre-se o calendário sem deixar algo que perdure, e muito menos o exemplo.










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