quinta-feira, 26 de julho de 2012

A minha mãe

  
    Um mês passou.
   A minha mãe morreu num dia ameno de junho, o dia 19, nesta cidade de Angra. Na minha memória um longo mês porque ausente da minha mãe. A minha mãe era já uma ténue sombra de si própria, um regresso progressivo e inexorável à sua primeira infância. Fisicamente definhou, tornou-se mais pequenina, perdeu a capacidade de falar, de se alimentar sozinha, de se alimentar depois. Eu era a senhora má ou a senhora boa conforme a sua disposição. Na minha condição de filha assumi a figura de sua derradeira mãe.
   Preciso da minha mãe! Quero-a a reconfortar-me, a mimar-me, a limpar-me esta ferida que doí, doí, quero a minha mãe a passar-me a mão pelo cabelo e a dizer-me que está tudo bem! Quero que a minha mãe seja minha mãe outra vez!
   São nove horas da noite, uma necessidade enorme de escrever sobre a minha mãe; quero que o tempo pare e que retroceda! Que retroceda a momentos em que era ela, a minha mãe, a fazer de mãe, que é para isso que as mães têm que servir, para nos socorrerem nas nossas aflições, a abraçarem-nos quando acordamos com pesadelos, a fazerem-nos um chá quando temos febre! Quero essa mãe, que tão bem soube ser! E eu quero ser novamente a sua filha, ser conduzida, ser ralhada quando me porto mal, ser mandada fazer, ser amada como só as mães sabem amar! Não sei ser uma filha a tentar fazer de mãe; os papeis estão invertidos, sei ser mãe dos meus filhos, sou sofrível no meu papel de mãe da minha mãe! Está tudo ao contrário! 
   Quero a mãe chata, opinativa, combativa e dura, por vezes! Quero a mãe presente e senhora do seu nariz! Trabalhadora, perseverante, corajosa! Aquela mãe que conduziu com mãos de ferro toda a economia doméstica, que sempre se orgulhou de nunca ter ficado a dever nada a ninguém, que sempre deu a quem precisou e que nunca deixou de criticar quem merecia reparo. Mulher nem sempre fácil porque exigente consigo própria sempre exigiu igual a quem amava. E foram muitos os que a amaram e que a recordam. E muitos mais  os que já morreram e que agora a não podem recordar!
   Quero a minha mãe para poder fazer o que, por vezes, deixei de fazer: ser uma filha como a minha mãe queria que fosse; menos rebelde, menos arisca, menos explosiva, mais meiga! Quero dar-lhe todos os beijos e abraços que tantas vezes deixei de dar, quero pedir-lhe perdão por todas as ofensas sobre ela tantas vezes cometidas! Quero pedir-lhe perdão por todos os actos e omissões, tudo o que fiz e não deveria ter feito, por tudo o que fiz e ela não merecia! Quero retroceder no tempo e ser a filha que ela sonhou para si, a filha que sempre esteve junto de si, que a apoiou sempre que precisou. Quero retroceder no tempo e dizer-lhe, sempre e mais vezes, " Mãe, amo-te!" 
   Não quero a mãe alquebrada, velha e senil dos seus últimos tempos! Não quero a mãe dependente, mansa, dócil, frágil, doente! Quero o furacão de vitalidade, aquela que nunca ficava doente. É essa mãe que eu quero. E não podendo, quero só mas só recordar essa mãe!
   Eu vi a minha mãe a morrer à minha frente, impotente para a salvar! Essa imagem consome-me, desespera-me! Dizem-me, é melhor assim, ela estava  a sofrer, não era ela que ali estava, era um corpo já sem espírito! No entanto, o que me dizem não me consola!
   Ontem sonhei que ela estava viva e a alegria foi enorme, o alivio do sonho mau que terminou, " Mãe, dizia eu no sonho, escreva, escreva mais no seu livro, conte-me mais histórias da sua vida, encha-me de memórias de si!" Sonho bom que terminou. Regresso à vida e à realidade de um ciclo que se encerrou! 
   O que resta? As memórias de si, o que para mim ainda é pouco, muito pouco! 

  
Nascida a 24 de Março de 1925, na aldeia de Sta Luzia, concelho de Ourique, distrito de Beja; falecida a 19 de Junho de 2012 no lugar da Ribeirinha, concelho e distrito de Angra do Heroísmo. 87 anos de uma vida cheia, 3 filhos, 5 netos.


   Esteja onde estiver querida mãe, uma grande saudade deixa em todos os que a conheceram, que a amaram e sempre amarão. Tudo farei para perpetuar a sua memória. Um pequeno livro sobre a sua vida, sobre a vida do nosso pai e de toda a sua família encontra-se em embrião, mais cedo ou mais tarde, acredito que o terminarei!
   
   

4 comentários:

  1. Será que o que tu pretendes não será aquilo que os teus filhos vêm quando olham para ti?

    Por mais duro que seja a sua partida lembra-te sempre que foste grande pelo que fizeste por ela: estiveste sempre com ela. Até ao fim.

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  2. Bárbara, nunca esquecerei a bondade da tua mãe. Há pessoas que conhecemos e esquecemos, outras relembramos e ainda há as que nos marcam. A Dona Ana foi, sem dúvida,uma pessoa que me marcou, que me ajudou muito numa altura difícil da minha vida. Foi um previlégio a ter conhecido e convivido com ela. Quando parte alguém importante, fica a saudade...dói, mesmo muito. Ficamos nós, que orgulhosamente perpetuamos a memória dos nossos pais. Tu tens a vitalidade, altivez e bondade dela e sei que ela tinha muito, mas mesmo muito orgulho nas suas filhas!

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  3. Muito obrigada aos dois pelas vossas mensagens! A minha mãe era realmente uma grande mulher, com todas as suas virtudes e os seus defeitos. Mulher de fibra e é essa mulher que, passados estes momentos de tristeza, recordarei sempre. Um grande beijinho

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  4. Onde quer que esteja, a sua mãe está muito orgulhosa da filha que tem!
    Um beijo grande!

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