segunda-feira, 9 de maio de 2016



 "Então pá, define-te lá, anda?! É verdade que o melhor da vida de qualquer mulher começa depois dos 40?! Que é nessa altura que estão maduras sem terem perdido a frescura e muito, mas muito mais marotas do que as verdes vintonas e as insípidas trintonas?! " Pfff, quem te disse isso anda em negação! Meu amigo, com a algibeira vazia, o cabelo a esbranquiçar, as peles dos braços a abanarem como pelancas velhas, estamos aqui é a desejar o consolo de chegarmos à terceira idade, porque aí estamos velhos e ninguém quer saber se estamos velhos e as pelancas dos braços são as pelancas dos braços que os velhos têm e os filhos há muito deixaram de ser os adolescentes egoístas e agora são só adultos e egoístas e os adultos não nos arruínam o orçamento. Enquanto adolescentes despejam o nosso frigorífico a horas pontuais, semeando esqueletos de maças roídas por baixo das almofadas dos sofás e cuecas sujas entre a porta da casa de banho e o cesto da roupa suja. Dizem-te que não percebem nada do que falas e que não entendes mesmo a ponta de um corno do que é a onda deles. Que não passas de um adulto "mainstream" aborrecido e comum, nome cientifico que usam para designar a mãe ou o pai  e que não queiras ter a veleidade de te aproximar deles, o seu mundo não é o teu e nesse mundo eles não te querem; a não ser que, desse mundo, os tipos façam um interregno a fim de que possas ter o privilégio de lhes preparar um leite estupidamente frio  com bolachas.  
" Defino-me?!! Ora deixa cá ver: à beira dos 50 anos, sem nada de meu a não ser um carro azul tipo carrinha do pão e que me dá aquele estilo extra, o toque final, o glamour da tipa desportiva descontraída que tem um carro de sete lugares para transportar canalha. Isso e as dívidas; não é que elas não me consolem, afinal de contas já convivo com elas há tanto tempo que se não as tiver é como se me falte algo. Para compor o ramalhete final, dizer que sou funcionária pública,  dou aulas, parece que tento ensinar umas coisas a uns seres e parece que esses seres vão aprendendo algumas coisas comigo, de vez em quando e se apetece. E nestes tempos de incerteza sobre o que quer ou não quer o adolescente, só sei mesmo se querem aprender, no próprio momento e de instante a instante, de manhã podem querer, à tarde arrependeram-se e já não querem e eu adapto-me. 
   Estou a ficar velha mas não sou velha, no limbo entre a perda do viço da minha condição de mulher mas não suficientemente velha para que parem de implicar comigo porque envelheço. Nesta fase transitória vistoriam-me as rugas do rosto, as peles das pernas e a flacidez das mamas e interiormente pensam, coitada, calha a todos, esta já passou a sua fase ascendente, agora é sempre para baixo mas vá lá, vá lá, podia estar pior, ainda se aguenta bem, se disfarçasse esses brancos e onde é que já se viu, tem a pele tão maltratada, é inacreditável como as pessoas não tratam de si. És uma mulher gira mas já não tão gira, estás na fase em que de ti dizem: é bonita mas haviam de ver quando tinha 20 anos, aí é que era uma brasa. Andaste estes anos todos a madurar em conhecimento e sabedoria, a separar o trigo e o joio, o acessório do que importa para que no final, o que conte é que foste muito mais gira do que és agora. E depois vêm com tretas que agora é que é, que a maturidade não tem preço, numa tentativa bacoca para esquecerem a inevitabilidade do seu próprio envelhecimento. 
  Mas à beira dos 50, tens uma prerrogativa que te assenta como uma luva, estás completamente nas tintas para o que dizem de ti, as rugas são tuas, as pelancas abanam nos teus braços e a celulite levou-te muitos anos em estágio e é-te de grande consolo mandar certa gente e todos e tudo para onde te apetecer, quando te apetece e sem saberes bem porquê. dá para tudo, mandas simplesmente e nisso vês consolo, ainda que não te sirva de grande coisa, para além de um alívio imediato. Como é temporário tendes a mandar cada vez mais vezes, porque o efeito é como nos ansiolíticos, quantos mais mandas mais tens de mandar. E é um privilégio que podes dosear a teu gosto!

Dirás, eu cá preferiria ser rico! Esse é que é um privilégio!

A sério?! Pois, olha que novidade, eu também e sabes, também preferiria ser a verde vintona ou a insípida trintona se conseguisse nessa idade ser menos estúpida ou menos sensaborona, ou menos desinteressante do que fui. Sendo assim e porque não posso, e com as peles todas e os primeiros achaques próprios da idade, vou dizendo que vou gostando do que sou mas se tivesse um milhão no banco ainda gostava muito mais.  Assim sendo e para ser sucinta, respondo:

À beira dos cinquenta , três filhos adolescentes indisponíveis e arruinada! 

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