quinta-feira, 3 de março de 2016

De avião...

   Uma hora antes de entrar no avião toma um calmante. Quando vislumbra o bicho  dá-lhe a primeira contractura cardíaca, sente piquinhos nas unhas dos pés e eriçam-se os pêlos do corpo. Respira fundo e pensa mais uma vez, que não se aguenta de tão parva. Senta-se no seu lugar, não sem antes fazer o primeiro reconhecimento do local, a ver qual a melhor forma de fugir, se pela frente, se por trás. Abre pela primeira vez o livro com a descontracção total de uma tipa a ferver por dentro. E começa os raciocínios, aqueles retorcidos que qualquer verdadeiro fóbico elabora com requinte. Olha disfarçadamente os companheiros de viagem a ver se vislumbra neles, indícios de quem espera, não tarda, a sua ultima hora. Se encontra alguém que conhece sente-se safa, agradecida, permite-se respirar um pouco melhor durante um breve momento. Homens a ler jornais ainda melhor, quem lê com tanta desfaçatez perante tão grande perigo, só pode ser um vencedor e não é ali, naquela casca de lata, que encerrará o derradeiro capitulo da sua vida. Gosta de viagens em que a partilha com muita gente nova, estatisticamente têm maior esperança de vida; um pouco como os tipos anti-vacinas que não vacinam os seus filhos mas que, obtém pela vacinação dos outros, a benesse da coisa. Sente, por essa altura, que todas as reflexões que fez para se convencer de que não vai morrer já, não ali, não agora, são tão estúpidas e inúteis que se apetece esbofetear até perder a consciência. O comprimido fez um bocadinho de efeito, um bocadinho só, a cabecinha fica leve mas basta um tremelique do passageiro a espirrar no banco de trás para ligar as antenas, instantaneamente. Abre o livro pela décima quinta vez e a frase que começou a ler tem as letras a rodopiar. Faz um esforço de concentração e  lê novamente só para perceber 5 minutos depois que não percebeu nada porque em todo o tempo que tentava juntar as palavras, só a atenção se concentrou nos vinte poços de ar inexistentes, nas alterações do ruído do motor e até a luzinha vermelha das asas lhe parece um curto-circuito antes de perceber para que serve.  Mas até que perceba houve mais um friozinho na espinha, por aquela altura já foram vários e tem os pés, as mãos e a ponta do nariz gelados. As desacelerações do motor, simples desacelerações de motor, são segundo a sua percepção, inicio da falha do motor esquerdo. Sempre lhe disseram que um avião funciona com um motor só, de banda talvez mas funciona,  mas também sabe que, segundo a lei de Murphy, se algo corre mal, as probabilidades de que tudo corra mal são altas e sendo assim, a seguir ao motor esquerdo vem o motor direito e não lhe parece plausível que um monstro de 100 toneladas plane qual gaivota serena no cimo de uma falésia, sustentada pelas correntes ascendentes. Com toda a probabilidade, neste caso os ventos seriam descendentes e a afunilar para  o caos lá em baixo, dez quilómetros a pique até não sobrar cacos.
   Por esta altura já se consumiram 30 minutos de voo e contra todas as previsões, o avião continua no ar o que, só diminui a probabilidade de se manter assim. A catástrofe está iminente e não percebe do que se está à espera para que aconteça. A espera mata-a! O comandante a querer ser solicito só enerva mais com conversas parvas do tipo " a viagem prevê-se sossegada a 11 km de altitude com -40 graus celsius e a voar a uma velocidade de 900 km/h". Dispensa-se tanta informação porque já se sabe o que fará com ela, tudo questões pertinentes e plausíveis para quem não tem os pés assentes no chão: Quantos minutos para passar da altitude 11 à altitude 0 a uma aceleração de 9.8m/s em queda livre?! Qual a velocidade de congelamento do corpo humano com temperaturas de menos 40 graus?! Com a cabina despressurizada qual a capacidade do ser humano resistir com o ar rarefeito caso a máscara de oxigénio encravar e não cair?! Com os nervos quer fazer xixi mas não se atreve não vá a porta de emergência, ao passar por ela, ser sugada para fora por um qualquer fenómeno inexplicável. Não aproxima a cabeça da janela, pede sempre um lugar na coxia, não vá a gaja rebentar, foi por isso que as fizeram redondas, para que não haja pontos fracos que cedam, os cantos. Se elas são redondas é porque já as houve quadradas, ninguém no seu perfeito juízo pensa em fazer janelas redondas, a não ser que já tenha havido merda! E no entanto, as redondas também não lhe inspiram confiança, as borrachas do vidro exterior estão meio encarquilhadas, daí até o vidro estilhaçar-se e lhe puxar a cabeça como uma rolha numa garrafa de champanhe é um passo.
Uma hora passou, já toda a gente comeu o manjar oferecido menos ela, a comida não passa, mais vale oferecer ao esfomeado do lado, daqueles que do avião aproveita tudo, só não come a toalhita refrescante porque nunca gostou do sabor a alfazema. Fecha os olhos a ver se deixa de pensar, mas se deixar de pensar deixa de estar alerta. Tem que controlar tudo, se controlar tudo, nada lhe passa despercebido. Por altura da aterragem surge a primeira ideia consoladora, tenta convencer-se a si própria que cair de uma altitude de 5000 pés deverá ser mais simpático que desde lá de cima, Pelo menos não deve estar tanto frio. Batalha com a perspectiva de ouvir o trem de aterragem a descer, pondera se será melhor em caso de despenhamento o avião cair na terra ou no mar, se a morte por afogamento será pior ou melhor que pelo fogo, não chega a nenhuma conclusão, Com a profundidade das suas reflexões entra num momento de transe em que, o mundo fica suspenso, até que depois de um tempo que lhe parece sempre comprido, sente a sacudidela do trem na pista e tal como sente fora de si os motores  a travarem, um imensurável alivio percorre todo o seu ser e suspira profundamente.
   E no final de tudo, fica maravilhada como, contra todas as perspectivas e previsões, nada se passou.

   A ver se faz menos filmes da próxima vez, e no entanto, da próxima vez há grandes probabilidades de ser dessa vez, ninguém tem assim tanta sorte, tanta vez!

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