domingo, 22 de dezembro de 2013

A viagem

  O Prólogo - 21 de Dezembro

 Hoje inicia-se a viagem! Depois de quase um ano de preparação, de sonhos e excitação por um acontecimento tão esperado, a viagem está prestes a acontecer e eu estou tão animada como um porco em vésperas de matança!
   Há quase um ano quando reservei a passagem e a comprei imediatamente para que não me desse uma insanidade temporária de querer desistir, a ideia era essa mesmo: não me deixar levar por complexos de culpa tão vulgares em mães e obrigar-me mesmo a cumprir com o propósito de avançar nesse empreendimento; hoje, apetece-me esbofetear-me por tanta inflexibilidade e no entanto, amanhã já pensarei de maneira diferente; a  típica instabilidade feminina que a tenho, a funcionar a meu favor ou contra mim, consoante a perspectiva. 
   Em Ponta Delgada em trânsito para o início da verdadeira viagem sobra-me tempo para não fazer nada que é algo que ultimamente não tenho tido muito tempo para fazer! E sabe bem!

1º Dia - Boston -  22 de Dezembro

Que amanheceu mais promissor, um sol quente em Ponta Delgada, uma manhã sem história e uma inquietação para abalar que teimava em não chegar. Mas lá chegamos, check in feito, menina da Vodafone abordada para activar o rooming total,  aquele procedimento que qualquer pessoa responsável teria já feito mas que eu, na minha enorme ignorância pensava que era só fazer a chamada e estando o mundo ligado por fios invisíveis, a coisa daria sempre certo. 
   Já no avião os comissários e as hospedeiras vêm distribuir os papeis de declaração da alfândega onde mais uma vez demos os dados mais importantes e respondemos a questões de toda a pertinência como seja: 
 - Trazem agentes infecciosos ou culturas de células, caramujos (????)?
 - Estiveram em alguma fazenda/rancho/pasto?
- Estiveram próximo de gado?
- Trazem convosco frutas, legumes, plantas, sementes, alimentos, insectos ou animais selvagens?

   Preenchidos os formulários com dúvidas evidentes sobre se eu e o meu companheiro de viagem estivemos perto de pasto ou próximo de gado inicia-se entre um comissário de bordo ao qual se juntou logo de seguida outro, e um viajante uma discussão sobre um bacalhau. Perguntava este, um homem de raça negra e portanto com toda uma cultura do bacalhau associado, se deveria declarar que o levava. Um dos comissários, o mais rebelde, dizia que não, o outro, muito mais cauteloso dizia que sim, que o deveria fazer, até porque os cães iriam certamente cheirá-lo e se o levasse omitindo tal facto na declaração era coisa para o reterem durante uns instantes, coisa que não desejava. Neste ponto e porque a discussão se desenrolava por cima dos nosso narizes, o Luís sugeriu que deixasse o bacalhau debaixo do assento ou que tivesse pensado melhor e e tivesse trazido o bacalhau disfarçado já transformado em pasteis; se envolto em batatas e com o aroma da salsa podia dar-se o caso de não ser matéria tão sensível ao faro dos cães. A risota alastrou e os comissários acharam por bem  afastar-se para manterem a postura garbosa e distante que cultivam. Certo, certo é que não se viu um único cão na alfândega e não houve apreensões de  substancias estranhas; tudo muito aborrecido, portanto. 
   Uma nota pitoresca, o nosso taxista recebeu-nos de turbante azul na cabeça e tinha o americano nome de Singh Amjad. Consegui empreender uma conversa de dois minutos com ele em que falamos, eu falei,  basicamente de milhas e quilómetros dizendo eu que no meu país era em quilómetros que mediamos as distâncias, esperançosa que me perguntasse de que pais vinha. O interesse manteve-se nulo, lá me disse que no Canadá também e fechou para balanço. 
O jantar  foi no Picco, uma pizzaria simpática com uma onda jovem muito cool seguido de um passeio nocturno pelas proximidades do hotel. Frio suportável próximo dos zero graus.

2º Dia - Boston -  23 de Dezembro

Não podia ter amanhecido mais irritantemente cinzento com chuva nas ventas não fossemos, eu o Luís apressar-nos a comprar um guarda-chuva a uma loja de conveniência daquelas rascas e chungas até ao desespero e com um negro americano com um ar de frete confrangedor! Em meia hora tínhamos um dos mapas completamente encharcado. Um Luís parecia um puto a olhar para tudo e quando fica excitado e bem disposto é muito divertido e o dia passou-se com risota com fartura. Ali por volta das 12horas achamos que não dava para continuar a encharcar-nos pelo que descobrimos a loja dos trolleys turisticos e enfiamo-nos num, muito parecidos com os nosso eléctricos, revestidos a madeira clara e bancos de napa verde. O nosso primeiro guia falava pelos cotovelos e não se calou um segundo desde que entramos no ponto 8 até ao ponto 16. Chegados ai, saímos, e entramos de novo para podermos ver todos os pontos turísticos e até mais um pouco; o Luís falou-me de um restaurante, o Cheesecake Factory e assim fomos até lá de trolley. Entramos na Barnes and noble e perdemo-nos por lá durante muito, mas muito tempo. Os empregados dos restaurantes de Boston são incrivelmente simpáticos, ás vezes demasiado simpáticos, de tanto que perguntam se está tudo bem; estamos tão mal habituados que a boa educação quase nos parece excessiva. Por duas vezes, dois cidadãos vieram ter connosco a saber se queríamos orientação para algum lugar, quase que tivemos pena em dizer que não , que estávamos bem e que sabíamos mais ou menos o que estávamos a fazer. Pobreza descobrimos alguma, uns tipos com ar de alguma indigência deitados pelos bancos antigos de uma igreja católica perto do jardim principal da cidade e alguém sentado num banco, cheio de tralhas á volta, numa ilha, com uma capa da chuva a cobri-la completamente. Dir-se-ia que era um monte de entulho se por debaixo não aparecessem uns pés, perfeitamente paralelos. Imóvel a figura, impressionou-me!
   Chegados ao hotel, depois de um momento de alguma desorientação que rapidamente corrigimos, chegamos ao hotel cansados e gelados. Acordamos uma horinha de ronha, eram 17 horas e tinha escurecido há meia hora. Deitados a aquecer foi até de manhã, dormi 12 horas como há muito tempo não me lembro de acontecer.

3º Dia - Cape Cod - 24 de Dezembro

Não chove e para mim é um alívio porque pegar pela primeira vez num carro automático pelas ruas de Boston parece-me temerário. O homem que nos deu o carro lá achou que os meus medos eram escusados porque entre chegarmos onde o carro se encontrava, num 7º piso de um daqueles grandes edifícios de estacionamento e sentar-se a conduzir, demorou uns simples 5 minutos, de explicação sumária, papelada para a mão, eu a dizer que nunca tinha conduzido um carro daqueles, ele a dizer que é muitos simples, não tem nada que saber, polegar para cima para fim de conversa e lá fomos nós por ali abaixo, 7 pisos em caracol, a minha aprendizagem prévia antes da cidade lá em baixo.  O GPS foi decisivo, em 10 minutos estavamos fora de Boston e a caminho de Cape Cod, a uns 130 km da cidade. Viagem sem história não fosse a excitação de me ver dentro de um carro americano de mudanças automáticas em estradas desconhecidas comigo a comandar as operações. O Luís é um bom co-piloto, tem bom sentido de orientação e é muito calmo. Não é daqueles homens que está sempre em stress quando uma mulher condz, sempre a dar indicações ou a a alertar para todos os perigos e sempre inquieto para passar para o volante. O Luís sente-se aliviado por não conduzir, se fossem dois condutores ela logo mais não sei quantos dolares por dia e não é preciso!

Cape Cod foi apreciada mais tarde, depois de sairmos da autoestrada principal com as suas casinhas de madeira, algumas casinhas de bonecas autênticas ( o Luís fala em casotas de cão!), muitos decoradas para o Natal, de todos os formatos e feitios mas muito bem arranjadas; de vez se quando lá se vê uma de madeira velha e decrétipas, no geral com muita graça! O mar foi visto mais tarde, quase que não conseguiamos tal proeza estando tão perto da costa mas não achavamos uma estrada que conduzisse até lá; resolvemos ir a uma povoação, Chatham, que ficava o mais junto da costa possível e daí finalmente vimos mar, vimos praia e vimos o farol de Chatham a funcionar em pleno. Continuamos o nosso caminho tentando chegar a Provincetown mas estavamos preocupados em fazer o checkin no hotel pelo que voltamos para trás quando atingimos Orleans, a povoação anterior a Provincetown. Almoçamos alguns numa casa que vendia peixe e marisco, uma mercearia pequena com uma zona de almoços, o Luís só pensava em marisco, só o havia numa especie de salada e toda a comida era a peso. Mordomias como talheres de metal ou pratos de porcelana nem pensar; aliás, já no nosso jantar observamos o mesmo. Afinal não estamos em Boston, terminaram as sofisticações, parece-nos. 
Vendo o sol finalmente espreitar timidamente decidimos que tinhamos que encontrar uma praia onde pudessemos ver o por do sol; cortamos por uma canada depois de vislumbrarmos um enseada e demos com uma prainha maravilhosa, pequenina, segundo a placa, praia privada, com um mar calmissimo, ondinhas bebés a vir lamber a areia e uns tons vermelhos no céu, de sol já posto.






À noite resolvemos ir a Provincetown, afinal de contas a vila mais importante de Cape Cod. Era cedissimo, não mais do que cinco horas da tarde e escuro como breu e a minha primeira experiência de carro à noite, e cegueta como sou, meia aprrensiva. Os carros americanos ou têm os farois mal direccionados ou andam de máximos e os outros que se amanhem, mas não me parece porque no que concerne a cumprimento dos limites de velocidade e regras de transito são muito cumpridores, pareceu-me; chegados a Provincetown pareceu-nos que estávamos a ser muito afoitos à procura de jantar numa noite de consoada mas a sorte protege os audazes e na Portuguese Square encontramos um dos dois bares abertos na cidade - o George Pizza and Pub. Muito boa onda, o empregado declaradamente gay, careca e com uma maravilhosa barba ruiva a meio caminho entre o António Variações e os ZZTop; tinha nas orelhas umas argolas alargadoras como algumas tribos algures nos confins do mundo mas este era bem americano.  Nessa noite partilhamos o espaço desse bar com o mais estranho dos grupos, um bando de mavericks de idades variadas, gente solitária e alguns seres quase grunhos de muitas cervejas ao longo dos anos. Uma pizza como ceia de consoada, os restos numa caixa de cartão para a fome noturna. Na noite fria um homem tocava musicas de natal com a sua flauta transversal, a cidade deserta, alguns, poucos passavam por nós, sempre cordiais. 

4º Dia - Martha's Vineyard - 25 de Dezembro

O Luís passou a noite a fungar e a espirrar, nitidamente incomodado. De manhã tinha-me deixado um presente no meu sapatinho!!! Que querido que foi! E eu que não tinha nada para lhe dar! Deixamos o quarto cedo! À saída, flocos dispersos de neve receberam-nos numa manhã gelada! A prioridade no momento era encontrar um sitio aberto que servissem pequenos almoços mas antes disso uma loja onde vendessem medicamentos para a constipação do Luís. Encontramos ambas, em poucos metros de distância um e outra. A Route 28 Dinner foi um verdadeiro achado!






Gerido por uma família de pai, mãe e dois filhos, serviram-nos um pequeno almoço de lordes, numa casinha com uma decoração muito americana. No final e porque me consumia numa questão de alguma importância, chamei o filho e pedi-lhe que me dissesse se sabia qual o tipo de combustível que o nosso carro alugado usava. Ele lá nos desfez as dúvidas e com um grande sorriso explicou-me que só poderia ser gasolina sem chumbo, o diesel ficava reservado aos " trunks"! Agradeci-lhe efusivamente, perguntou-nos de onde vinhamos, quando respondi desejou-nos " Boas Festas!" Depois disse-nos que era casado com uma rapariga de São Miguel e que a filha de ambos tinha nacionalidade portuguesa! 
Um palavra para a senhora que nos atendeu na loja onde o Luís foi comprar os medicamentos, de uma simpatia enorme também vendo que eramos estrangeiros, perguntou de onde, respondi de Portugal, pensou em Porto Rico. Eu corrigi-a dizendo que não, que vinhamos da europa ao que ela respondeu perguntando: " porque raio é que vindo da europa se vêm enfiar em Cape Cod?" " Porque é bonito, outro tipo de beleza mas bonito! " E ela: " Não sei, vivi a minha vida toda aqui, não consigo ver essa beleza!"

   De novo na estrada o objectivo é Martha's Vineyard! O GPS a cumprir o seu papel na perfeição, damos ao fim de uma hora com o ponto de partida dos ferryboats para a ilha -  Woods Hole   -, aguardamos uma hora depois de comprados os bilhetes, 58 dólares o carro e 9 dólares cada pessoa. O ferry levou meia hora hora a chegar à ilha numa viiazinha chamada de Vineyard Haven. Deste ponto até ao nosso hotel é uma curta distância pelo que fomos ver Edgartown e descobrir estradas até ao mar.























Depois de fazermos o check in no hotel, de recepcionista para não variar, muito simpática, fomos jantar ao Sharky's uma bela hamburger com batatas. Regresso ao hotel para actualizar o blogue.

   5º Dia - Martha's Vineyard - 26 de Dezembro

   Hoje o dia foi dedicado a descobrir a ilha, a descobrir os faróis da ilha e a tentar descortinar alguns dos locais das filmagens do filme 'Tubarão' de 1975 realizado por Steven Spielberg. Infelizmente o dia não esteve tão benevolente para connosco, choveu muito apesar da temperatura ter subido bastante. Decidimos dar a volta à ilha começando por Oak Bluffs e visitar o primeiro farol do dia. 



O East Chop lighthouse que fica acima da localidade e depois do East Chop drive onde o Chief Brody tinha a sua casa, no filme. Daí fomos até o segundo farol do dia, o West Chop lighthouse.



Próxima paragem, Menmesha bay onde o velho lobo do mar, Quin tinha o seu estaminé e de onde o barco Orca, o seu abalou para o mar para apanhar o tubarão. 
Antes de lá chegar uma paragem junto de um cemitério da ilha, o Oak Grove Cemetery, enorme jardim com lapides humildes plantadas por toda a superficie.



Menmesha bay é uma pequena povoação piscatória com um porto minúsculo, o tal onde muitas das filmagens foram feitas. 









Já no caminho para o 3º Farol, o de Gay Head vi na berma da estrada o que parecia um animal a debater-se; parei o carro e observei uma águia a agitar-se abrindo as asas: parecia-me que matava um roedor mas vendo melhor vi-a aflita porque tinha as garras enfiadas em folhas secas de plátanos das quais se tentava desesperadamente libertar. Estava incomodada comigo pelo que, levantou voo e foi tentar libertar-se para outro lado. Vimos, ou antes, o Luís viu, que eu vou demasiado atenta à estrada, picapaus, raposas, muitos corvos, esquilos e outra águia ou uma qualquer outra ave de rapina a voar à frente do nosso carro uns bons 50 metros antes de curvar à esquerda para desaparecer no meio da vegetação. 


O farol de Gay Head é o mais afastado de todos e o único revestido a tijolo vermelho, o único também a funcionar na ilha. Chovia copiosamente pelo que me encharquei para consegui umas fotografias miseráveis. 





Aqui chegados só nos faltava calcorrear as estradas da parte sul da ilha. Fartos de estradas principais ou quase, queriamos ir por 'canadas' mas cedo percebemos que todas as canadas dão acesso a casas perdidas no meio da floresta e terminam abruptamente. No entanto, ainda conseguimos entrar por duas que nos conduziu a duas paisagens maravilhosas, imagino o que não conseguimos ver pela amostra aleatória que conseguimos entrando por duas estradas de terra, ermos absolutos e fora de tudo. Interessante que há casas perdidas em toda a superfície da ilha, todas em madeira e algumas lindíssimas, outras pouco maiores que barracos. 









O almoço foi em Edgartown no único pub aberto, o Newes, uma sanduiche de perú com potato chips e uma ida novamente a Oak Bluffs ver se conseguiria encontrar umas t-shirts para os miúdos com imagens do tubarão. Nada feito, as lojas praticamente todas encerradas! A vila é estranha, exageradamente pintada com todas as cores do arco-irias, com casas quase absurdas de bizarras como se saídas de um conto de fadas.













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