segunda-feira, 9 de abril de 2012

Retratos de uma dona de cães insensível

      Que fique claro, eu queria ser veterinária, era uma coisa de criança, adorava animais, era excessiva na proteção aos animais desfavorecidos, ficava genuinamente triste na tristeza de cada bichinho que encontrava. Maçava a minha mãe com as minhas angustias! Só não entrei em veterinária porque não tinha média e não querendo perder um ano da minha vida decidi-me em fazer os testes para o ISEF. Ser professora foi a segunda escolha, mas pareceu-me bem na altura e depois destes anos todos a ensinar (educar) putos, continua a parecer-me bem e a não arrepender-me da decisão que tomei. Agora, estou saturada de dar aulas mas isso é outra história e não cabe aqui.
   Sempre tive animais, principalmente cães, e ao longo destas minhas décadas de vida, os vi crescer e morrer perto de mim e sempre senti a dor que se reserva a um grande amigo, no entanto sempre com a noção da inevitabilidade da sua morte primeiro. E muitos partiram e alguns com dor deles e minha e dos meus filhos mas com o tempo vai-se ganhando uns calos , tomam-se decisões e aprende-se a lidar melhor com as opções e as saudades.
   A Minerva, a minha cadela fox-terrier tem quase 12 anos, sempre foi uma cadela saudável, excelente comedora de galinhas vivas. Tinha um processo limpo e eficaz de limpar a carcaça e deixar a pele e as penas intactas. Teve uma vida boa, sem doenças e com uma capacidade surpreendente para se safar de quedas e atropelamentos, que os teve, sem uma arranhadura. É uma cadela com sorte!
   Há coisa de 3 anos numa consulta de rotina ao vet, a minha médica da altura encontrou uns caroços numa das mamas da cadela e logo ali achou que seria necessário uma operação de remoção do tumor por haver grandes probabilidades de metastizar e começar a afectar fígado e afins. Pois sim! Obviamente que o faria se na altura o dinheiro desse para tudo, que não dá, e se não tivesse encargos com filhos e bicharada com fartura. Havia que fazer escolhas e na altura pareceu-me a opção certa. Entretanto vim para a Terceira, por altura das vacinas, a nova veterinária aconselhou-me o mesmo porque o tumor tinha crescido, porque poderia ter invadido os tecidos adjacentes, porque a esperança de vida da cadela encurtava, por isto e por aquilo!
   Finalmente, na última tosquia que fiz à Minerva achei que o tumor estava demasiado grande e já estava na altura de operar.

   E é aqui que entra a minha insensibilidade de dona de cães, com gosto pelos animais mas com necessidade de gerir o dinheiro  esticando-o para muita coisa :

1- Marcada a consulta, vista a cadela e novamente aconselhada a cirurgia de remoção do tumor, a veterinária fala-me da necessidade de fazer análises para saber do estado geral da cadela, a fim de se saber se aguenta ou não uma  anestesia já que é velhota. É aqui que entro eu a perguntar o porquê de tanta precaução, dizendo " Mas diga-me, é ou não fundamental a cirurgia?" "é" " então se é, porquê saber se a cadela aguenta ou não a anestesia?" Olhar desaprovador da veterinária " Porque há alternativas! Há a medicação para melhorar a qualidade de vida da cadela!" Riposto " Quantos anos acha que a Minerva viverá?" Resposta rápida " Até aos 16 anos" Resposta ainda mais rápida " Já tem 12 e teve uma vida boa prefiro que morra na sala de operações a andar medicada para uma morte lenta." Foi marcada a operação, entretanto é preciso desparasitá-la e desparasitando a cadela desparasita-se os outros três cães, e coisa e coisa, 80 euros de conta! Fora a conta da operação que nem quero pensar quanto será!

2 - Cá fora à espera de pagar, entra um homem bem aprumado, de grande cordão de oiro num peito aberto de fina camisa roxa, com uma caixa de sapatos numa das mãos, visivelmente perturbado. Curiosa como sou, espreitei e perguntei o que continha. Não sei, responde, estava na rua onde passei. Um pássaro, pensei primeiro mas logo vi que era um pintainho preto. Abria o bico em agonia, de olhos fechados e pareceu-me moribundo. " Não posso ficar com o bicho" diz aflito "Espere um pouco, deve estar quase a vir alguém". O empregado aparece e o homem, brasileiro, aflito mostra o seu doentinho, o empregado leva-o à veterinária e regressa pouco após com  veredito: " será melhor eutanasiar o animal mas as despesas da eutanásia terá o senhor que as suportar" Admito que sou inconveniente e muitas vezes deveria guardar as minhas impressões para mim mesma " Coisa nunca vista, eutanasiar um pintainho, deixe-o ficar na caixinha que breve exala o seu último suspiro!" Olhar mortal direto para mim do assistente que diz " Para garantir que o animal não sofre!" Ora nem mais, quem te manda seres fria, insensível e desprendida com os animais, levaste a resposta que merecias. E o homem pagou e saiu mais aliviado por ter cumprido com o seu dever!

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