sábado, 21 de abril de 2012

O Melro e o Mitra em dose dupla!

O verão chegou à Terceira, para o bem e para o mal. Hoje, bem cedo cumpridas com as minhas responsabilidades filiais e maternais, engolido o café no centro comercial cá da terra,  de antenas viradas para o meu mar de estimação, céu azul de sol risonho,  encontrados dois amigos sintonizados na minha onda, o primeiro banho tomado para enxotar os excessos da noite anterior, a primeira contrariedade surge para o primeiro teste: nuvens altas, densas e de andar vagaroso, estupidamente lentas, a encobrir o meu sol, ventinho implicante e invejoso e eu a começar a ferver por dentro que por fora a conversa era outra. Tomada a decisão de não me abater, pança virada para o espaço, o olhar fixo na bola redonda de sol a tentar espreitar, conjurei toda a minha mente a ver se as estúpidas nuvens andavam mais depressa.  Consumi o meu pobre cérebro em uma hora de desconforto, ainda não transida de frio mas a andar lá por perto, eis senão quando o sol espreita e medidos todos os azimutes considero que por meia-hora terei o meu esplendor ao sol! Já prestes a entrar naquela sonolência mansa que nos quebra a tensão e nos suaviza a mente, que amiúde nos impede de ter que pensar, situação tão doce e tão rara, os meus ouvidos são brutalizados com dois "Foda-se!" de rajada. Esforço-me por erguer a cabeça e reclamo ofendida " Por amor de Deus, mais tento na língua!". Dois seres de pequena estatura e menor cérebro olham-me incrédulos e afastam-se de mansinho, lançando-me olhares ressentidos como quem se ofendeu com o reparo. Recomponho-me, ajeito-me à pedra dura do cais, e reinicio o meu diálogo com o sol! Fraca consolação! Um ser, o Mitra, ser de difícil definição e mais ainda de difícil convívio,  para meu grande azar, lá longe, muito longe,  notou a minha presença e lesto a circular, em menos de um farelo se enfileirou a meu lado, absolutamente incapaz de entender que a vontade de o ver era directamente proporcional à vontade de levar um enxerto de porrada, atingiu-me, desprevenida com a sua voz " Olá amiga, estás boa, como vais, na Silveira, há tanto tempo!" Mantive-me em decúbito ventral e de rosto virado para o outro lado enquanto respondia com voz enfadada a ver se a coisa pegava e se ele ia aplicar o charme para a banda de lá, do oceano, preferencialmente! Qual quê, que este mitra é persistente e não entende os vários cambiantes de voz e a linguagem corporal! " Já estás muito morena!" Adivinho que já me vistoriou da cabeça aos pés e começa-me a crescer por ali acima uma ânsia de o volatilizar através da força do meu pensamento! Mas que ele é basto e não desaparece com facilidade! E logo acrescenta " Não conheço a amiga que está junto de ti!" E não vais conhecer, ó minha grande aventesma, penso eu, e respondo laconicamente " Pois não! Olha, a água está maravilhosa! " Safa-te daqui, ó abécula, vai-te afogar que aqui não há espaço para ti,  estás a envenenar-me o ar que respiro, pensei mas não disse intimamente descontente com a minha falta de coragem! Ele percebeu, penso eu, aparentemente derrotado, e lá se mexeu. Entreabri um olho a medo e murmurei " Sofia, Sofia, isto é mais do que eu posso suportar, ficas zangada se te abandonar?" " Não penses que me deixas aqui sozinha" A Sofia em pré-pânico, eu em pânico completo. " Vamos bazar enquanto o coiso não aparece para a segunda ronda!" " Não vás mais longe!" " Vou, vou o mais longe que puder e as minhas pernas permitirem!".  De ténis nas mãos para ser mais rápido, com a Sofia, no meu encalço, a magoar os pés nas pedrinhas pontiagudas, aquelas em que mais ninguém põe os pés, senão eu, neste meu jeito desajeitado de me magoar a torto e a direito, sem que haja explicação lógica para o facto, inicio a minha subida da rampa em gritinhos de "Ais e uis" e já prestes a conceder-me uma pausa oiço atrás de mim " Belo dia de praia, não é assim, agora que o sol vem e que se está bem na água é que se vai embora!?!" Não estou certa de ter ouvido bem, não é possível que tal me esteja a acontecer, parece-me uma daquelas cenas irreais, pequenas cenas da vida em que a vida é pródiga e que observamos, de fora para dentro, espectadores da nossa própria cena! Rodei o pescoço somente para confirmar o que temia: O Melro Preto! Claro, só podia ser o Melro Preto, para rematar uma manhã em pleno era ele a personagem que faltava. Por um instante fiquei maravilhada com a ordem cósmica que faz, de uma forma enganosamente aleatória,  precipitar os acontecimentos, para o bem ou para o mal! Acelerei o passo, rosnei uma resposta por polidez e jurei iniciar as minhas incursões à Serretinha, donzela de menores atributos mas livre de visitas indesejadas.

   P.s. - para quem ler estas  linhas e se sentir de alguma forma horrorizado com a contundência desta minha escrita, aconselho a leitura, neste meu modesto blogue do " Melro Preto" e do "Mitra" para que possa entender melhor a natureza destes meus, admito sem pejo,  não muito nobres sentimentos e talvez assim me concedam alguma razão.  

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