terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Carnaval da Terceira

   Ontem terminou o Carnaval para mim e diga-se em verdade, graças a Deus porque não conseguiria nem mais um passinho de dança ou uma mistura venenosa pelas goelas abaixo! Não é vida para meninos, para fracos de carnes ou de espírito! Estas maratonas de folia deixam mazelas e se bem que revitalizantes para a alma dão-nos cabo dos pés, dos pulmões, do fígado, do sono, do nosso equilíbrio orgânico! Para além de obrigarem a puxar pela cabeça quanto ao nosso disfarce, que não se pode repetir, a bem da criatividade artística tão importante nesta época. E encontram-se verdadeiras obras de bom gosto e rasgo criativo nas ruas e nas festas de carnaval: a dupla teia e aranha, o candeeiro humano, a múmia, a maléfica Samara do filme The Ring, gajas peludas com fartura, muito gosto eu de ver homens vestidos de mulheres e todo o tipo de personagens dúbias de  suspeito valor artístico, aquele pessoal que enfia uma peruca nas melenas e um nariz postiço e afirma-se mascarado! Vê-se de tudo, mascarados a rigor em que até o cu liga com as calças e outros que não têm tafulho nenhum, o que não deixa de lhes dar uma certa graça. E depois há os que se começam a despir das suas máscaras e os outros que se mantêm firmes e convictos das suas personagens, que aguentam saias apertadas e maminhas ao peito e caminham enviesados por via dos sapatos de queda alta que lhes confundem os movimentos e os deixam engraçadamente ridículos. Sempre achei um piadão a ver homens feitos, de pêlos infindos vestidos de mulher, deverá ser a única ocasião do ano em que podem finalmente expor a sua versão feminina, que também a têm, sem que os censurem, muito pelo contrário! Nesse dia ninguém é paneleiro, gay ou invertido! É tudo gente com piada! E,  em bem da verdade tem graça ver um homem vestir-se de mulher mas piada alguma ver uma mulher a vestir-se de homem! É aborrecido, não choca, não abana as cabeças tacanhas  e mortiças de ninguém! Envergar roupa feminina deve representar para muitos homens o estádio maior de atrevimento, o passar a linha do aceitável e sancionado pelo espírito carnavalesco, eles não hesitam em ultrapassar esse limite! E eu gosto de vê-los assim expostos e sentirem-se bem no seu papel; assim mascarados tornam-se mais autênticos! Um pouco como as mulheres que aproveitam as festividades para serem ainda mais atrevidas, como eu, que não perdi a oportunidade de  ir mascarada de mulher da má vida, puta, pois então! Admito o meu pecado, adorei a parte do show of, sem a parte dolorosa da função! Fui atrevida, pecaminosa q.b. e confesso que estava um pouco excessiva! Essa abertura que o carnaval permite é o que o torna tão sedutor, certos que é aí e só aí que os excessos se confinam! Quando a personagem se mantêm para lá disso é moralmente condenado, socialmente proscrito! O carnaval é a exposição das nossas pequenas e grandes ridicularias, incongruências e maldades. Capacidade de admitirmos quanto patéticos somos sem que tenhamos que nos atirar duma rocha abaixo ante a descoberta! Uma espécie de terapia de grupo em que todos, mas todos estão num estado de loucura colectiva em que apesar de todos os indicadores, se consegue recuperar sem danos aparentes! Uma loucura saudável.

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