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S. Tomé - dias 3 e 4

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   Ontem conheci o Awoul de 20 anos, hoje conheci a Florência de 70.    O Awoul tem este nome estranho porque há o hábito aqui de juntar os nomes das pessoas mais chegadas, ou o dos pais, ou dos padrinhos ou no caso, o de um tio e do pai. No facebook tem um nome mais sonoro, é o Esparguete d'Açucar. Conheci o Awoul quando embiquei para a esquerda porque o trânsito no centro da cidade não me deixou virar à direita. Assim, fui para o interior, passei alguns vilarejos, todos alinhados ao longo da estrada até chegar a Trindade (antes disso existe o cemitério da Trindade que eu irei visitar nem que seja de fora, é muito interessante, muito velho, quase um jardim) onde tentei por gasóleo mas não havia. Dei a volta e deparei-me com um jogo de futebol. Parei mesmo por trás da baliza e quando fui a ver tinha metade do plantel a olhar para mim. Porque os rapazes e os homens sãotomenses não são acanhados chamaram-me logo e eu parei o carro. Veio o Awoul muito curioso e eu ap...

São Tomé - dia 2

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Estou sem internet, escrevo no papel à moda antiga e depois actualizo o blogue. Parece que aqui costuma dar um surto por toda a internet na cidade, um pouco à semelhança com o que acontece com a luz na Terceira. Bem, são ilhas, estão no atlântico, pode ser que se explique por aí. O Fernando ficou em Angola, a distração saiu-lhe cara, só vem a 26 o que significa que este Natal ainda vai ser mais radical do que supunha. Hoje de manhã, ao pequeno almoço, a minha cozinheira, a Sónia, disse-me que caso “o meu marido” (ontem ainda fui dizendo que era ex mas aqui parece que esse reparo não colhe nenhuma credibilidade, já o Nuno torceu o nariz, pelo que vai assim, de marido, que é para facilitar a conversa) não viesse, eu passava o Natal com ela. Agora digam-me, quantas vezes pessoas que mal nos conhecem nos convidam para passarmos o Natal com elas? Só me perguntou se gostava de dançar. Nem se discute esse assunto. Dançar na noite de consoada com ritmos africanos é mais do que poderia imag...

São Tomé - dia 1

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   Este principio de dia seria sem história não fosse o meu parceiro nesta viagem ter tido o péssimo gosto de perder o avião, estando no aeroporto! Ou seja, as perspectivas de vir amanhã são de 60% segundo o funcionário da TAAG, gosto do pormenor do número sessenta, normalmente o pessoal quando lança um numero vai para os ímpares, 50% ou 75%. Se os 60% não se confirmarem passarei o Natal sozinha.     Tirando essa questão não sei muito bem por onde começar! À primeira vista a ideia é que nos estamos a aproximar da ilha de São Miguel. Depois repara-se que a vegetação é diferente e que a costa não é tão abrupta e  rochosa. E de repente surgem as praias com os seus tons de mar, azul e verde a confundirem-se.     O bafo quente e húmido é pungente e percebe-se que a terra é nova. Do teu lado direito vês uns ilhéus, os"Ilhéus das Cabras" dizem-te.     E depois, depois é um suceder de caos organizado, gente, motas, carros, jipes...

São Tomé e Princípe - o início

2018 foi um ano fora de série, verdadeiramente fora de série. Ano de resoluções, umas pensadas, outras empurradas. Mas, de todo o modo, resoluções.     Este é o ano do início de São Tomé e Príncipe. Este é o ano em que eu redescobri uma velha ideia na minha irrequieta cabeça: ir viver para São Tomé e Príncipe. Viver um ano, passar uma temporada, estar uns tempos. Viver simples e ajudar quem precisa ser ajudado. Quem quer, quem desespera por ajuda. Sentir que posso fazer mais qualquer coisinha do que consigo e me deixam fazer aqui. Trabalhar por gosto, não por obrigação. Sair desta máquina infernal da rotina ocidental e aprender a levar chapadas e levantar. Aprender a viver com pouco e não ansiar por mais. Embrenhar-me numa forma de vida que não sei mas que anseio por saber. Dar uma parte de mim porque quero e porque me querem. Ver, sentir, cheirar, ouvir sons e cores e gentes.  Inicio aqui. Este vai ser o meu diário do que vejo e do sinto nessa terra onde anseio ch...

O beijo da avó

   A minha mãe mandava-me beijar os avós. Quer dizer, a minha mãe não mandava, sabíamos que tínhamos de dar beijos aos avós. Mas não só aos avós, aos tios, padrinhos, primos e desconhecidos, tios dos primos dos padrinhos e amigos dos tios dos afilhados. Essa era uma tarefa da mãe, não do pai, não me lembro do pai dizer para beijar fulano ou sicrano. Devia ser uma competência de mãe, da minha mãe era. Quando íamos ao alentejo, à aldeia da minha mãe, no percurso a pé para a casa dos meus avós passávamos por uma casa, numa esquina de porta sempre aberta, onde trabalhava um sapateiro, um homem que me parecia muito suspeito porque era aleijado e tinha um rosto estranho, facto a que a minha mãe não era sensível e eu era obrigada a beija-lo, com uma certa repulsa, confesso. Mas beijava e ele sorria muito naquele seu rosto estranho e falava e a minha mãe falava e conversavam sobre a vida e sobre a sua juventude, por vezes. Para mim aqueles momentos eram penosos mas eram os rituais d...

Rescaldo

   A primeira nota que tiras da tua recente separação do homem com quem viveste 5 anos e, quiçá, a mais importante, é que já não tens ninguém que te faça massagens aos pés que sabiam tão bem, nem massagens nas costas, nem bem... massagens a coisa nenhuma. Se queres tirar os nódulos de stress ali na zona das omoplatas, encostas-te a uma quina de uma porta e roças-te como os ursos fazem quando querem marcar o território. Serve! Coçar o ponto mais inacessível das tuas costas quando as sentes a ferver de comichão também já não será possível, tens sempre a colher do esparguete que faz o mesmo serviço e não arranha tanto. Deixas de receber mensagens do tipo "olá gata, baby, amor ou querida" e passas a ser, quando há mensagens a B., uma consoante. Também já não tens ninguém a dizer-te que tens pêlos a crescer-te na parte posterior das coxas quando estás na praia a ver se relaxas. A relevância da informação é tal que só te apetece que ele próprio te arranque os pêlos com os dentes. ...
    Há muito tempo que não vinha ao meu blogue, vim hoje neste dia 2 de Outubro, dia que não me deixa indiferente. Senti durante algum tempo que nada tinha a dizer, andei amorfa e acomodada, sem paciência para retomar a escrita do meu livro, aquele que levará, muito provavelmente, uma década a ser terminado e pasme-se, sem grande paciência para a minha faceta ranhosa de falar mal. A vida corria tranquila e tranquila me encontrava no marasmo dos dias, a tentar dar algum sentido à rotina tantas vezes obtusa em que o ser humano se atola e onde eu bem chafurdei. Pasmava-me de tanta inércia onde alguns sobressaltos me arrancavam, de tempos a tempos, em entusiasmos febris, momentâneos e inconsequentes. Por vezes a vida é absurda de tão leviana, levamos grande parte da nossa vida a desgastar aquilo que poderíamos ser e que só afloramos muito tenuemente, um ser mais consciente e que se aproxima, em espaços, do esboço perfeito da nossa possibilidade humana, mas que nunc...

O natal do divorciado

Natal! No Natal ninguém pensa nesses desgraçados, nessa casta de desperados que são os divorciados. Eu penso e estou solidária. O divorciado passa por cinco estágios ao longo da sua condição de divorciado: O primeiro é a Negação: o tipo ainda não percebeu, sabem, aquele momento que acontece quando, por ex. um puto tira um chupa chupa ao outro e este fica ali um segundo a tentar perceber o que lhe aconteceu antes de começar a chorar desalmadamente? No Natal ainda toma banho, perfuma-se, compra a prenda certa e tem esperança que ela se comova com a tristeza dele, apesar dos 50 sms diários sem resposta. É um crente. Com o segundo estágio vem a raiva e tudo descamba. Aos 50 sms de amor seguem-se 50 sms mortíferos onde o Stephen king se poderá inspirar. É um estádio de insanidade normalmente temporária. Convém fazer um seguro contra todos os riscos, do carro também e todos os bens perecíveis. O Natal é explosivo e imprevisível. O presente comprado foi queimado num ritual satânico. As fo...

Auschwitz - para que nunca se esqueça!

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Auschwitz I "O trabalho liberta" Câmara de gás Forno crematório (sala imediatamente ao lado da câmara de gás. Os alemães sempre altamente práticos) Cada prisioneiro aprendia muito rapidamente que era importante passar despercebido; não levantar o olhar, não transparecer uma emoção, um lampejo de raiva, de dor, de indignação, o comportamento volátil e imprevisível dos soldados e oficiais alemães tornava a existência de cada um como um jogo de dados. A sorte ou o azar ditou o destino de muitos. Os castigos, se o prisioneiro tinha sorte de não ser sumariamente fuzilado, podiam passar por ser encerrado num espaço exíguo junto com outros com igual sorte, durante uma noite, de tal forma exíguo que, de manhã, na abertura do buraco nem todos estavam vivos.  O trabalho da maioria era ao ar livre a vários km do campo, com sol abrasador ou temperaturas de -20 ou 30 graus, sem um agasalho ou um abrigo. Sobreviviam os que tinham um espírito t...