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Silveira - actualização de verão

    A Silveira está ao rubro. Esta é outra Silveira, não aquela dos meus banhos no inverno, esta Silveira está apinhada de gente que só põe o pezinho na água se esta estiver em ponto de ebulição. Gente que precisa de sol, de preferência sem nuvens, que as nuvens moem com a sua disposição e os deixam a bater o queixo em risco de hipotermia. Habituais, indefectíveis defensores do banho durante o ano inteiro, alguns banhistas de mão cheia:   senhoras já bem entradotas, de boa postura e fina figura, com horror a molharem o cabelo, um fenómeno que me escapa, velhos de secas carnes, algo mirrados mas invejável condição física, que de verão ou de inverno se afirmam maravilhados com a água. Pessoas de tão habituadas  que estão destas andanças que fazem a distinção da temperatura da água, de dia para dia com precisão até às centésimas.     A Silveira no verão é um caldinho social onde convivem não se misturando gente muito diferente: de manhã cedo surgem as f...

A minha mãe

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       Um mês passou.    A minha mãe morreu num dia ameno de junho, o dia 19, nesta cidade de Angra. Era uma ténue sombra de si própria, um regresso progressivo e inexorável à sua primeira infância. Fisicamente definhou, tornou-se mais pequenina, perdeu a capacidade de falar, de se alimentar sozinha, de se alimentar depois. Eu era a senhora má ou a senhora boa conforme a sua disposição. Na minha condição de filha assumi a figura de sua derradeira mãe.    Preciso da minha mãe! Quero-a a reconfortar-me, a mimar-me, a limpar-me esta ferida, quero a minha mãe a passar-me a mão pelo cabelo e a dizer-me que está tudo bem! Quero que a minha mãe seja minha mãe outra vez!    São nove horas da noite, uma necessidade enorme de escrever sobre ela; quero que o tempo pare e que retroceda! Que retroceda a momentos em que era ela, a minha mãe, a fazer de mãe, que é para isso que as elas têm de servir, para nos socorrerem nas nossas aflições, abr...

Fim de semana em São Jorge - Calheta

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   Experiência engraçada esta de andar num barco semi-rigido para fazer o percurso entre ilhas! Ao nosso grupo de marchantes calhou o barco do João Medeiros, conhecimento de há 30 anos. Muito bom rever este colega antigo e desde já, muito menos atrevido como quando implicava comigo no liceu!    Foi um fim de semana relâmpago mas cheio de graça e acção, marcha, banhos de mar de madrugada, concertos de grupos locais com muito interesse, uns shots de vodka e absinto poderosos, convívio super saudável entre gente descontraída e boa onda. Naquele grande grupo seria porventura a 5º pessoa mais velha, andava tudo no inicio dos trintas, finais dos vinte!    Sem transporte e sem tempo ficamo-nos pela Calheta mas ainda deu para um passeio a pé até ao parque de campismo da Calheta e fazer uma visita rápida ao cemitério da vila.

A Tasca do Venâncio

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    Quando me instalei na casa número 5, desde logo me agradou uma data de coisas: o sino da igreja, os ruídos dos carros lá longe, o som de uma  tampa de esgoto meia solta quando passada por cima por um carro,  os ruídos dos passos das pessoas a descerem a minha rua, a balbúrdia de sons na Tasca do Venâncio logo ali, ao virar da esquina. Sempre que por lá passava me luziam os olhos, o ambiente descontraído, a montra cá fora com as flores e as frutas a atrair clientela, a risota pegada, algumas discussões mais acesas. Ontem a pretexto de não querer fazer almoço e sendo o aniversário do Gui, decidi irmos almoçar à tasca. Pedimos bitoques de novilho mas fiquei a salivar na visão de um cântaro grelhado de ar suculento. Ficará para a próxima, a minha carne estava saborosa e as socas de milho muito docinhas. A cozinheira é uma 'pontalhona', como se diz cá na terra, de língua afiada, resposta pronta e olhos sorridentes. Quem entrar nesta tasca armado e...

A vigiar...

    A distância para percorrer uma largura da sala onde me encontro a vigiar um exame são 11 passos dos meus, ligeiramente menos que um metro por cada passo, a um tempo inferior a 1 segundo por passo. Sei o tempo porque tenho o relógio da sala a martelar-me a cabeça, naquela cadência exasperante, audível o suficiente na sala silenciada, entrecortada pelo virar de páginas ou pelas fungadelas ocasionais mas invariavelmente presentes dos alérgicos de serviço. Os 11 passos que vou teimosamente vencendo prolongam-se por mais de uma hora e meia, espremidas que são todas as derivações desta rotina. Em contas ainda que grosseiras, conto que dê 66 passos por minuto, 3.960 passos por hora, 5940 em hora e meia, alcançando cada parede com o mesmo pé, rodando sempre da esquerda para a direita e usando sempre o pé direito como pé eixo. Esta rotina aproxima-me misericordiosamente de um estado catatónico que alivia do aborrecimento. O meu cérebro cumpre apenas os serviços mini...

Singela

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Sindroma do Domingo à tarde

   Efectivamente as putas das almôndegas da bimby estavam boas como o caralho! Foi de resto a única coisa que se aproveitou desta merda do feriado à tarde e se se chocarem com o meu vernáculo carroceiro fiquem desde já a saber que é o que mais me ocorre dizer nas tardes de qualquer feriado e que portanto não retiro qualquer palavrinha mais inconveniente. A tarde só começou bem quando enxotada a sorna insuportável de uma tarde obscura, dormida a ver se a coisa passava mais depressa, me resolvi a preparar a porra do jantar.      Sofro do síndroma do domingo à tarde e pior é quando o síndroma do domingo à tarde acontece sem ser domingo à tarde. É desonesto, faz-me sofrer dois dias na semana, o dia do verdadeiro síndroma e o dia do síndroma a fingir. Desregula-me todo o relógio sistémico, deixa-me prostrada e pronta a soltar imprecações! Dá-me para dizer asneiras, que querem, é assim que consigo escapar a...

Desesperadamente à procura de uma casa!

   Devo ser das pessoas nesta ilha que mais corre sites de agências imobiliárias, tirando a minha colega Graciete que deve estar empatada comigo. Uma cena meia voyerista com implicações menos perversas mas mesmo assim uma tendência de que não me orgulho especialmente, uma certa forma de ser a que não consigo resistir. De tempos a tempos, com uma sazonalidade persistente, lá vou eu dar mais uma espreitadela na esperança que haja algo que me encha o olho e me faça sonhar! A procura do meu cantinho, talvez, uma casa com alma, que tenha sido vivida e onde cada canto me conte histórias passadas. E elas existem aqui nesta terra! Existem mas estão-me vedadas!     Quem vende na Terceira tem, regra geral, uma incapacidade total para atribuir um valor real à sua propriedade: tugúrios mal engendrados, pardieiros para albergar humanos de valores absurdos, palhotas bafientas de materiais de construção medíocres mas, salve-se isso "com vista"! Aquilo a que ...

Take it easy!

   Ontem fui à farmácia a que habitualmente recorro, comprar um medicamento de venda livre que infelizmente não tinham na loja mas que o farmacêutico, solicito, iria averiguar da existência no armazém. Assaltou-me um dilema: esperar que telefonasse e aguardar a vinda do dito ou ir ali, ao virar da esquina, e entrar na farmácia do lado?! Dilema prontamente resolvido, não há escrúpulos de fidelidade que aguentem 4 farmácias todas juntinhas à mão de semear! Existem 7 farmácias nesta cidade: uma delas, dou-lhe o número sete  porque é a última a que recorro, está estratégicamente colocada perto do antigo hospital, onde toda a gente parava depois de ir às urgências ou às consultas externas - lembra-me aquela agência funerária grotescamente plantada a poucos metros da saída principal do hospital. Estratégia decerto eficaz uma vez que a encontro sempre com clientes,  um pouco como os artigos estudadamente colocados nas prateleiras dos supermercados; quem é que procura os pr...

Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo?!

       O dito popular é uma grande treta! Qual será a relação de proporcionalidade entre aqueles a quem Deus apara e aqueles que caiem estatelados no chão? Haverá algum critério superior que escolha os que são agarrados ou Deus brinca aos dados? Quero muito crer que a cada sofrimento infantil exista uma explicação divina que a  nós, imperfeitos mortais não nos é permitido aceder. Só assim poderemos tornar a  nossa existência mais suportável, saber que alguém orquestra a nossa vida, de um forma nada aleatória! O contrário é inconcebivel! O viver por viver sem outro objectivo que não a existência física é redundante, vazia, deprimente.     O Gui, o benjamim cá de casa, estatelou-se ao comprido este fim-de-semana e não teve colchão de queda que o aparasse! Podia ser pior, dizem-me as pessoas bem intencionadas e inquietas por me aliviarem a preocupação. Imagina que tem sido num olho, imagina que... Pois, devo ficar efectivame...

Os bichos cá de casa

   Tenho uma certa tendência para complicar a minha vida! Gosto de bichos e os bichos gostam de mim, gosto demasiado de bichos e os bichos respondem da mesma forma, um íman invisivel que nos atrai; não há gatinho na rua a quem não me apeteça fazer festas, cão rafeiro que não se aproxime de olhos mansos e perdidos.    Quando vim para os Açores, trouxe 3 cães, o que muito me custou, que sai imensamente caro transportá-los por avião, sem falar nas caixas transportadoras, caras e de utilidade pouco recíclável. Ainda pensei deixar um dos cães com uma pessoa amiga mas achei injusto trazer uns e deixar o outro. Lá vieram todo, cães e filhos em igual proporção.    Pouco tempo passado cá na terra oferecem-me um coelho branco, ainda gaguejei uma primeira recusa mas o entusiasmo de ter um novo inquilino, parou-me a tempo e um dia depois o coelho branco de olhos vermelhos instalou-se lá em casa. Ficou ao cuidado de todos e teve uma vida feliz e despreocupada...

A turma de oportunidades

   Tenho uma relação de amor/ódio com a minha turma de oportunidades! Certo, certo é que relação monótona não é! Aqueles gajos conseguem fazer-me sair do sério, atingir um certo patamar de loucura até que uma réstia de auto-preservação surge e me faz parar antes que cometa um acto irreflectido de que me arrependa. E por gesto irreflectido falo dumas bofetadas profilácticas bem aplicadas e comprovadamente eficazes. Em 25 anos a dar aulas não cheguei a uma dezena de bofetões; todos bem aplicados, com força q.b., nenhum com força suficiente para deixar marcas, com excepção de um, de quem vou falar agora, passado na escola da Lousã: a artista era um daqueles miúdos terriveis, rosto bolachudo, de língua afiada e inteligente, miúdo gordito, de rosetas vermelhas nas faces que achava que era ruím e fazia por mostrar isso; pertencia a uma daquelas turmas-maravilha de currículos alternativos, para quem eram destinados os professores com perfil para os aguentar - vim a sa...

O Melro e o Mitra em dose dupla!

O verão chegou à Terceira, para o bem e para o mal. Hoje, bem cedo cumpridas com as minhas responsabilidades filiais e maternais, engolido o café no centro comercial cá da terra,  de antenas viradas para o meu mar de estimação, céu azul de sol risonho,  encontrados dois amigos sintonizados na minha onda, o primeiro banho tomado para enxotar os excessos da noite anterior, a primeira contrariedade surge para o primeiro teste: nuvens altas, densas e de andar vagaroso, estupidamente lentas, a encobrir o meu sol, ventinho implicante e invejoso e eu a começar a ferver por dentro que por fora a conversa era outra. Tomada a decisão de não me abater, pança virada para o espaço, o olhar fixo na bola redonda de sol a tentar espreitar, conjurei toda a minha mente a ver se as estúpidas nuvens andavam mais depressa.  Consumi o meu pobre cérebro em uma hora de desconforto, ainda não transida de frio mas a andar lá por perto, eis senão quando o sol esp...

Retratos de uma dona de cães insensível

      Que fique claro, eu queria ser veterinária, era uma coisa de criança, adorava animais, era excessiva na proteção aos animais desfavorecidos, ficava genuinamente triste na tristeza de cada bichinho que encontrava. Maçava a minha mãe com as minhas angustias! Só não entrei em veterinária porque não tinha média e não querendo perder um ano da minha vida decidi-me em fazer os testes para o ISEF. Ser professora foi a segunda escolha, mas pareceu-me bem na altura e depois destes anos todos a ensinar (educar) putos, continua a parecer-me bem e a não arrepender-me da decisão que tomei. Agora, estou saturada de dar aulas mas isso é outra história e não cabe aqui.    Sempre tive animais, principalmente cães, e ao longo destas minhas décadas de vida, os vi crescer e morrer perto de mim e sempre senti a dor que se reserva a um grande amigo, no entanto sempre com a noção da inevitabilidade da sua morte primeiro. E muitos partiram e alguns com dor deles e minh...

Passeio pedestre à Serra de Sta Bárbara

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Pico do Capitão (Porto Martins) - Farol das Contendas - Trilho das Bestas - Azure

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