Recortes...

     Em 1969 com 2 anos e meio fui para Moçambique, terra da qual guardo imensas imagens, cheiros, impressões de todos os sentidos! Vivi 4 anos na cidade da Beira, dentro da Capitania do Porto, rodeada de barcos na doca e em doca seca, com o mar indico a dois passos! Lembro-me das enormes papaias que havia no nosso quintal e da única e frondosa mangueira! Lembro-me dos imensos insectos, das libelinhas gigantes, dos gafanhotos que por vezes vinham em pragas,  das prodigiosas tempestades que duravam dias e dos relâmpagos e trovões que me aterrorizavam e que me faziam esconder-me debaixo da cama dos meus pais. Com 6 anos fui ao Parque Nacional da Gorongosa com a família e tive o privilégio de ver em estado quase natural, dado que este parque é enorme com quase 4.000 km2, os animais que só víamos em desenhos de livros escolares e em fotos de revistas. Na altura ainda não havia televisão em Moçambique, até aos 7 anos não sabia sequer o que era um televisor! Era muito pequena mas as imagens que guardo são nítidas e imutáveis! Lembro-me de ir,  numa daquelas carrinhas volkswagen com tecto amovível, por uma picada, num dia claro com muito sol e a carrinha ter parado para podermos apreciar os animais que se agrupavam do lado esquerdo da estrada a uns duzentos metros, que animais eram não me lembro mas muito nitidamente recordo que nesse instante reparamos que do lado direito a uns 15 metros, com um andar lento mas imperativo, um leão atravessa a estrada completamente indiferente ao veiculo!  A emoção de ter visto m leão, grande, amarelo e de juba, (via finalmente uma juba, Meu Deus!) foi uma experiência maior na minha vida!
   Regressada a Portugal em Setembro de 1974 fomos viver para a zona sul muito perto da Costa da Caparica, numa zona ainda muito pouco habitada, com maus acessos, onde as casas que se construíram primeiro foram umas poucas entre elas a dos meus pais. Desta época, passada a tristeza de ter deixado Moçambique guardo muitas imagens das quais destaco as seguintes:
- O bairro onde vivia estava rodeado de pequenos bosques constituídos principalmente por pinheiros bravos e mansos, alguns deles já com muitos anos, de copas largas e frondosa, de típica flora marítima, de solo arenoso. Esses bosques eram lindos, não estavam ainda demasiado     explorados  pela mão humana, a única utilização que tinham era a caruma que servia de cama para os animais que algumas pessoas criavam nos seus quintais, as pinhas para acender as lareiras e os pinhões que se apanhavam ainda nas pinhas ou no chão. A utilização mais duvidosa era no entanto o corte de alguns pinheiros no Natal, facto que não recordo ter criado especial impacto negativo mas que soube mais tarde haver  opções muito mais ecológicas. Nesses bosques brincavam sem temor as crianças do bairro, sem vigilância paterna excessiva. Nas férias de verão tornavamo-nos uns perfeitos selvagens que só vinham a casa para comer e para dormir. Lembro-me perfeitamente de voltar para casa para jantar, voltar para a rua e só ir dormir já depois das 11 horas da noite! Muitos anos mais tarde, esses bosques que também tinham alguns exemplares de sobreiros foram progressivamente asfixiados pelo crescimento dos bairros adjacentes e um deles foi devastado pelo corte de todos os pinheiros, deixando uma clareira desoladora que nunca mais foi preenchida; mantêm-se os sobreiros e outras árvores menores, alguns pinheirinhos rebentaram entretanto mas nunca mais o bosque teve o porte e a beleza de outrora!!
- O leite consumido no bairro vinha de uma quinta que ficava a uns duzentos metros; lembro-me de à tarde a minha mãe me dar um recipiente e eu ir buscar o leite e de esperar que a vaca fosse ordenhada, achava o máximo ver a destreza com que a caseira ordenhava: ela tinha uma caneca medida, não sei se de meio litro se de um litro, um funil e era assim que despejava o leite que os fregueses lhe pediam; lembro-me também de um dia lhe pedir para ordenhar um pouco e de ter achado que não era assim tão simples como me tinha parecido!
- Lembro-me também de os campos que rodeavam o bairro terem muitas figueiras e que nos era permitido apanhar os figos quando amadureciam! Lembro-me finalmente de irmos apanhar amoras e da minha mãe fazer um doce de amoras maravilhoso! O meu doce favorito era contudo o de tomate que uma vizinha nossa fazia e que me dava um boião só para mim porque sabia o quanto eu gostava!
- os nossos lanches eram muito simples e não havia ainda hábitos consumistas: os gelados eram só muito de vez em quando e dos mais baratinhos; para o lanche as preferências iam para o pão com manteiga e fiambre ou o meu preferido, pão com manteiga e açúcar e lembro-me também que comia limões, tomates crus e maças e peras acabadas de apanhar da árvore;
- Sendo os meus pais do baixo Alentejo, um de Garvão e o outro de Santa Luzia passava normalmente as férias de Natal e da Páscoa na casa dos meus avós paternos: o meu avô já estava limitado devido a uma trombose mas a minha avó era uma mulher com mais de 80 anos cheia de genica que matava galinhas sem ajuda e que cuidava de uma cerca onde alguns dos meus tios que viviam também na aldeia a ajudavam com a horta, as várias oliveiras e árvores de fruto e criavam alguns porcos. Tinham também uma porção de colmeias do qual saia um excelente mel. Daquela cerca recordo principalmente a excitação que sentia quando era necessário ir ao poço, que ficava ao fundo de uma vereda estreita, encimada por uma latada de vinha e éramos seguidos sem perigo pelas abelhas das colmeias. Um dos meus tios tinha a missão de levar a grande infusa para onde deitava a água que tirava manualmente do poço por intermédio de uma grande lata de alumínio, objecto feito especialmente para aquela função; ele tinha uma técnica certeira de inclinar o tal recipiente a fim que se enchesse completamente de água e deixava a mim e à minha irmã, com extrema paciência, que experimentássemos também, tarefa que não se revelava nada fácil. Adorávamos o pão, o queijo e os enchidos, o café que a minha avó fazia e os cozinhados simples mas aromáticos: as sopas de tomate, as açordas, o bacalhau com grão… as filhoses que se faziam no natal bem como as fatias douradas e as cavacas cobertas de açúcar. E o campo… o cheiro do campo, o calor do verão, o frio intenso do inverno, a lareira onde se assavam castanhas e bolotas, onde nos sentávamos para passar o serão a ouvir os meus avós a contarem histórias de tempos duros mas com tanta graça que nos faziam rir, por vezes até às lágrimas. Recordo as cigarras, os campos de trigo, o sino da igreja a tocar para a missa do galo,  a paisagem despojada de excesso. Tudo me encantava! A minha avó já morreu há muitos anos e apesar de pouco ter mudado, nada voltou a ser igual!
   Em 1977 fui viver para a Ilha Terceira, Açores onde a primeira impressão que tive foi um profundo cheiro a mofo quando entrámos pela primeira vez na casa que ia ser a nossa, na Rua da Palha, antes Rua Padre António Cordeiro! Esse cheiro ainda o associo à Terceira, não sendo um cheiro agradável dá-me sensações muito positivas; toda os cinco anos que vivi na ilha foram momentos muito marcantes que condicionaram em parte muitas das minhas escolhas futuras. Foi também o momento de encontro com o mar, com a condição de ilhéu, a constatação de vidas muitos diferentes da minha, de cenários desconhecidos. O tempo das primeiras memórias afectivas profundas!